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Estou fã de Céu. A cantora, que revelou-se há cerca de 2 anos junto com um número de outras de RJ-SP, lançou seu segundo disco. Das que eu conheço, é a única com trabalho musicalmente relevante para uma nova MPB. Céu mistura eletrônica, afro, mpb, samba e reggae com equilíbrio. Se arrisca em alguns momentos, mas numa ousadia não ostensiva, que dá alguma coragem aos trabalhos, sem que seja ignorada a vocação pop geral. Isso é raro e requer profissionalismo, bagagem, dedicação e (muito) boas companhias.
"Vagarosa", o novo disco, não soa imediatamente perfeito. Então por que gostar tanto dela? Bom, é o pacote. Ele te respeita. Vejamos:
1. Uma voz doce, não afogada em efeitos;
2. Letras eficazes - balanço entre sentido direto e ambiguidade poética*;
3. Brasilidade que orgulha e permeia todas as canções, mas nunca é panfletária;
4. Senso para relegar celebridades e se juntar a gente contemporânea e/ou instrumentistas virtuosos (Curumin, Pepe Cisneros, Guilherme Ribeiro, Gigante Brazil)**;
5. Abertura para timbres contemporâneos e negação de fórmulas;
6. Competência e repertório de estúdio para assinar a produção do próprio disco;
7. Apresentação de moça doce, sem maquiagem pesada, que se soma a um trabalho gráfico conciso, de bom gosto;
8. Entre as mensagens possíveis na arte, a melhor escolha: leveza, amor, beleza.
Pensando, acho que a última vez que vi algo parecido foi a muito especial época de ouro da Marisa Monte, que já passou, mas foi um marco no sistema de produção da MPB.
Além de reunir todas as qualidades poéticas e musicais, é importante que um trabalho dialogue com seu tempo. Nesse sentido é demais que a Céu seja uma cantora que não tenta nos vender Cleópatra - algo que já foi, enterrou-se depois da saturação das divas pop americanas. Tem ligação com a introspecção que marca essa época pós-crise, pós-obama, pós-lula, pós-pop. Como disse, os discos da Céu não são perfeitos, mas são lindos em suas irregularidades, elas são verdadeiras. Isso, pra mim, é um bom trabalho, e como é difícil fazer um bom trabalho.
Céu se apresenta em SP nos dias 2, 3 e 4 de outubro, no Auditório Ibirapuera.
*Há muitas letras por aí, mas as que brilham são aquelas que nem contam uma historinha, nem jogam palavras ao alto. As que fazem sentido suficiente para você cantar e se identificar, mas que logo se sabotam pra abrir espaço pro resto. Na minha opinião, Jota Quest, Avril Lavigne, Nando Reis (trabalho solo), Frejat (trabalho solo) não são equilibradas. Chico Buarque, Ed Motta, Steely Dan e marchinhas de carnaval, são!
**Céu é filha do maestro Edgar Poças com a artista plástica Carolina Whitaker...
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